Escritos, prosa ou poesia, vindos do meu coração, gerados pelas raízes de minha vida.
28.6.11
26.6.11
21.6.11
Esmeralda
Era ainda muito pequena e me encontrava sentada num degrau do quintal de minha casa. O céu tinha um tom avermelhado e a lua já começava a aparecer naquela imensidão tão longe de mim, mas que não fugia aos meus olhos curiosos e atentos.
Lembro-me principalmente de Esmeralda, hoje, em minhas recordações, uma mulher da qual não consigo lembrar do rosto. E´ estranho não recordar suas feições, porque é muito forte, a vivência de seus carinhos e atenções.Naquele dia, particularmente, sentia-me triste. Uma tristeza que nem eu mesma saberia explicar. Apenas sei que naquele momento só desejava olhar para o céu, e ter o carinho de minha babá Esmeralda. Sua voz doce e terna ainda ecoa em meus ouvidos, bem como a canção com que costumava transmitir todo o seu amor. Sim, sentia-me amada por aquela mulher. Mas não consigo ver o seu rosto. Ainda hoje sua canção me traz muita saudade e me remete à minha infância. Uma infância que estava ligada aquele quintal, aquele jardim, cheio de lindas samambaias e Esmeralda...
Ela estava sempre a me olhar e conhecia cada lágrima que derramava, cada sorriso que aflorava em meus lábios.É realmente muito sofrido não poder saber as características de seu rosto. Não o recordo realmente, mas posso até hoje sentir suas mãos em minhas mãos, meu rosto encostado a seu ombro. Sim, meus olhos, por vezes, procuravam os seus, numa doce busca de segurança e parceria.
Onde estará Esmeralda? Não sei como, porque e quando foi embora de minha casa. No entanto quanta falta me fez, quanta saudade... Para mim, Esmeralda ainda está naquela casa, em pé, encostada ao pesado e verde portão. Demoliram minha casa, mas... E Esmeralda, onde ficou minha babá?
Pessoas passam em nossas vidas. Quantas nem sabem como se tornaram importantes! E Esmeralda? Saberá ela que deixou para trás uma menina, que não lhe recorda o rosto, mas lhe tem grande amor?
Esmeralda... Não sei se um dia a encontrarei de novo. Mas, esteja onde estiver, gostaria que ela soubesse que lá, muito distante, muito atrás, nos anos da infância, existe uma criança que lhe quer muito bem, uma criança que precisa ouvir a antiga canção, mais uma vez, que seja. Precisa sentir seu abraço, e encostar a cabeça em seu ombro.
Esmeralda, talvez ninguém consiga imaginar a saudade de uma criança. Talvez eu tenha ficado em sua recordação, talvez não. Mas esta menina precisa encontrar você novamente. Precisa lhe dizer da vida que tem levado, de tudo que tem sonhado, das lágrimas que tem derramado, da infância que insiste em se tornar presente, da maturidade que construiu a partir de um canto de quintal. No entanto a menina ainda está lá, sozinha, no passado, esperando por Esmeralda. Esta criança precisa vir para o presente, e se encontrar com a mulher que se tornou.
Esmeralda, talvez não a encontre, mas sei que, em algum lugar, você há de ouvir o doce canto de uma criança, e o calor dos braços infantis chamando... Esmeralda.
17.6.11
16.6.11
Divagando sem saber filosofia
Pensando em filosofia, vislumbro como é maravilhoso o pensamento com que o ser humano é dotado. O raciocínio vai tomando caminhos, vertentes e se comunica entre os seres humanos, numa maravilhosa busca de explicações de nossa própria natureza e de tudo que temos ao nosso redor.
É considerado que a filosofia ocidental nasceu no século VI a.c. na cidade de Mileto, que era estrategicamente localizada num encontro entre o ocidente e o oriente. De seus filósofos, não se tem muito ou nada de escritos. Mas sua sabedoria não se perdeu. Thales foi desta época e desta cidade. Uma de suas teorias era que o mundo estivesse, de início, apoiado em água. Daí sua teoria de que a origem de tudo é a água.
Achei isto tudo bem bonito, atual e interessante, visto que a discussão ambiental, reside atualmente entre nossas grandes preocupações. Thales ia adiante, que tudo era nutrido pela água, dando como exemplo as sementes e o esperma, que são líquidos. Uma vez que estes são a origem de todos os seres, nada mais interessante do que uma atenção especial à esse pensamento.
Não sei se o que me fascina mais, já neste ponto, é propriamente a água, ou o encadeamento de idéias dos seres humanos. Reflito que como tenho uma preocupação especial ao que estamos fazendo com nosso planeta, com a humanidade, ouso tomar de ponto de partida o pensamento de Thales, para devanear um pouco, como é característica das crônicas que faço.
Fico com duas preocupações, a água e o homem, que se fundem numa só, uma vez que a humanidade seria inviável sem o líquido em questão. Estas duas formas de vida estão sempre em minha reflexões.
Como pesquisadora, não posso deixar de achar terrível, a indiferença com que se trata a sobrevivência de futuras gerações. A água é utilizada de forma indiscriminada, comprometendo uma vida que pode se extinguir devido a seu esgotamento.
Mas meu coração, no momento atual, é muito mais voltado para as questões humanas do que qualquer outra coisa. Não que eu ache que esta preocupações não residam no campo do humano, pois o cuidado com a água, transmite também amor a vida do ser humano, de uma forma geral, e não simplesmente com sua própria. Desejaria muito que todos estivessem envolvidos com esta causa, que além de garantir a continuidade dos seres humanos, demonstraria que estes são capazes de saírem de seu próprio interesse, para pensar nos outros.
Mas gosto de estar em contato com o sentimento, alma com alma, simbiose que deveria ser plena. Volto a meu coração e ele pede que fale agora um pouco no homem, na busca, no amor, em atitudes que tragam melhorias para o mundo em que vivemos. Triste constatar a total falta de preocupação com as pessoas, o desamor como são tratadas. Como pedir que pensem na água, que respeitem necessidades futuras, se nem ao menos se consegue impedir a banalização com que a vida é tratada.
E a verdade é que, apesar da globalização, ainda temos muito pouca informação do sofrimento de pessoas, da dor da fome, da miséria que reina no mesmo mundo em que vivemos. Assistimos desastres de avião, em que vidas e famílias foram completamente interrompidas. Esta notícia, ao menos, chega até nós.
Mas vou adiante, penso, por exemplo, num pequeno ser, que sente fome, que olha outros se alimentando fartamente, que observa o exagero do consumo, que ele é incapaz até de compreender.
Penso nas guerras, onde se interrompe vidas, porque simplesmente, países não concordam com as divisões territoriais, com a divisão ou finalidade da terra.
Penso nas religiões que deveriam ter como objetivo, uma ligação com Deus, e esta só se pode completar quando se passa pelo nosso semelhante.
Penso numa mãe que abandona seu filho, porque não tem como criá-lo, ou por total ignorância do real significado da maternidade.
Penso nas famílias, que deveriam ser ninho de amor, segurança, proteção e parceria. Será que estão cumprindo seu papel?
Volto a pensar em Thales, que começou todo esse meu raciocínio. Com certeza, em muito deveria diferir em concepções das minhas próprias, mas que mesmos assim, num respeito que deveria ser o nosso cotidiano, utilizei para começar a divagar.
Bebo um copo de água e reflito como sou feliz em tê-lo a minha disposição, saboreio e sinto o bem que me faz.
Água, como início de tudo, começa e finaliza a constatação que não somos nada se não nos unirmos para fazer deste, um mundo melhor.
10.6.11
Silêncio
Nunca havia parado para pensar no silêncio. Parece banal, irrelevante, mas em determinado contexto, vem se afigurar como a um tesouro. Nele mergulho, buscando toda dor de minha alma, nos momentos de imensa tristeza. Através dele também encontro os sorrisos brotando como rosas em jardim.
Vem-me a recordação do silêncio de Maria, mãe de nosso Deus, que tão bem soube guardar seus mais íntimos sentimentos, por um amor puro e sem máculas. Pode enfim estender este mesmo amor a todos, adotando-nos como seus filhos. E hoje, recorro a esta santa mulher, mais uma vez. Meus lábios cerrados por sensações que jamais poderiam ser expressas por palavras, envolvem todo meu ser na intimidade de minha essência.
E lá... Encontro respostas, companhia, desafios, energia e uma inexplicável força. Tudo isto me leva a um estado de inebriante bem estar. O mundo, lá fora, torna-se distante, e eu, como a passear por entre sonhos e esperanças.
Sinto-me só, uma solidão que me traz a presença de meu Criador.
Sinto-me fraca, de uma fraqueza que me leva a força do Deus que aprendi a conhecer e amar.
Tudo então se mistura numa inexplicável simbiose que me deixa com a certeza de nada entender. Meus dedos tremem, procurando apalpar meu rosto, como em busca da confirmação de tal realidade, que me fascina e amedronta.
Silêncio de uma paz escondida... Terreno longínquo que exige o cessar dos rotineiros ruídos. Por entre meus pensamentos, uma onda suave me toma, me leva, me envolve.
Silêncio do amor procurado... Nada a compreender, apenas entrega. A doce embriaguez do amor sem limites. Aquele que não admite barreiras e não traz dentro de si a cobrança de condições para existir.
Silêncio que se impõe para sentir bem perto minha alma a chorar e sorrir, transformando os sentimentos em reais sensações, presentes que se misturam trazendo-me o toque do Deus Criador. Alma humana, alma minha, que se eleva à distância incomensurável, penetrando em horizontes jamais percebidos, permitindo estar diante de uma grandeza que consome todo meu ser.
Silêncio da dor, dor real, dor do corpo, que castiga o coração e me faz retornar a consciência do mundo a minha volta. Por instantes voei para bem longe, mas a dor se fez presente, atraindo-me a atenção para a fraqueza de minha humanidade.
Volto então aos antigos anseios, que me fazem lutar pelo conforto, pelo aconchego do corpo. A dor que incomoda e que me faz sofrer. Não é uma dor insuportável. É pequena, insistente e dominadora. Faz-me pensar que preciso colocar pés no chão, caminhar e fazê-la retroceder.
Recordo-me então de meus devaneios, de minhas indagações acerca da dor humana. Dor física, dor emocional, dor do vazio, dor pela dor. Inexplicável mistério diante do homem. Sua presença a ninguém agrada, mas torna o homem mais voltado para o outro que passa, às vezes despercebido, mas... No momento da dor, quão irmão é este transeunte...
A dor que me leva ao silêncio... O silêncio que me leva a dor... Ambos me trazendo Deus. Presença mais nítida na noite da alma. É luz que brilha em minha vida. Clareia as sombras de meu ser, aquece o frio que se impõe no vazio de minha alma.
Silêncio, silêncio profundo, da busca incessante de uma verdade. Embala-me e me traz a ingenuidade de minha infância, os sonhos de minha juventude e a consciência de minha maturidade.
Silêncio do ser, silêncio da dor, silêncio do riso. Meus olhos então procuram o ponto mais distante que podem alcançar, procurando unir todo meu ser à grandeza do Deus Criador. E aí, neste exato lugar, encontro o silêncio do mergulho na natureza divina, onde minha alma se alimenta.
Pouco a pouco este silêncio que me envolve me faz feliz, pois encontro a unicidade de minha natureza, sem limites, sem dores nem lágrimas. Apenas o âmago do espaço interior, vindo à tona, brotando com toda beleza de saber-se presente num mundo criado por Deus. E Nele se percebe seu princípio e seu fim.
9.6.11
Justiça
Pensando em nós, habitantes de um mesmo lugar chamado Terra. É chegada à hora da preocupação com o que estamos fazendo com esta imensa nação planetária. Não temos mais países, estados, cidades. Somos irmãos, moradores de um mesmo espaço.
Desta mãe que nosso Criador no deu, podemos tirar tudo: alimento, calor, beleza, encanto, sustento. Mas isto é destinado a todos. Somos testemunhas da imensa pobreza em que vive a maioria dos homens. Nada está longe para nós. Num mundo globalizado como o nosso, não passamos imunes às informações. Temos o exato conhecimento de que muitos estão morrendo de fome. Outros tantos não têm acesso à educação e outras necessidades inerentes ao ser humano.
E o que podemos falar do futuro? Em nome de uma satisfação pessoal, e por uma preocupação de ter a exata sensação de vivermos dentro dos padrões impostos, podemos inviabilizar a sobrevivência de gerações futuras.Matamos nossa mãe, é isto. Ela, que torna viável nosso dia a dia, recebe um tratamento desumano.
Vivemos como se tudo jamais acabasse. E sabemos, só Deus é eterno. Se tirarmos algo de mãe Natureza, há que ser feito de forma racional e que não prejudique a continuidade de qualquer espécie.
Em seu livro 'Civilização Planetária', Leonardo Boff cita o fundamental: que todos os seres vivos têm o mesmo código genético. A diferença reside nas diferentes combinações deste código. Assim, continua ele, São Francisco de Assis não estava errado quando chamava os animais de irmãos.
Mas que destino têm estes nossos irmãos, se nem ao menos o ser humano conseguimos respeitar. A paz tem que ser um caminho para uma vida mais justa, que traga em seu bojo, reais possibilidades para todos.
Mas o que fazemos é justamente o contrário, vamos em frente, não importa que o outro sofra ou chore, que não tenha o que comer, que não possa receber uma educação digna. Temos mais a preocupação de acumular para não faltar. Como se pudéssemos prever o futuro. Como se controlássemos nossos destinos. Desta forma, chega-se a uma sociedade injusta, em que muitos sofrem necessidades para que poucos tenham assegurados seu 'legítimos' direitos.
Soluções? Não as tenho, mas carrego comigo a preocupação de estar fazendo parte de uma grande injustiça. Penso em Deus. O que Ele teria a me dizer neste exato momento? Também não sei, mas tenho a certeza que não era este seu plano. Ao nos colocar em um mundo tão perfeito, que supre todas nossas expectativas, acredito que desejaria que partilhássemos mais o que nos é ofertado.
É neste momento que meu coração se sente pequeno e isolado. Onde estão todos? Onde posso encontrar meu limite para tornar possível a vida de um irmão? Cada um tem sua resposta. E a reflexão conjunta pode nos levar a um início, a uma vida mais digna para todos.
O que falar então da espiritualidade? A consciência de que esta vida é efêmera, e que somos viajantes rumo a um mundo menos material e mais justo. A certeza da existência de um Deus pessoal, amoroso e receptivo, que não discrimina mas nos acolhe a todos. Pode ser o caminho. A fé em Deus passa então pelos companheiros de jornada. Quero começar, quero saber o que se passa com o próximo. Quero tirar de meus olhos a confortável venda que me permite viver independente da carência à minha volta. Quero ser feliz, sem que para isto, outro pague o preço alto desta injusta alegria.
Desta mãe que nosso Criador no deu, podemos tirar tudo: alimento, calor, beleza, encanto, sustento. Mas isto é destinado a todos. Somos testemunhas da imensa pobreza em que vive a maioria dos homens. Nada está longe para nós. Num mundo globalizado como o nosso, não passamos imunes às informações. Temos o exato conhecimento de que muitos estão morrendo de fome. Outros tantos não têm acesso à educação e outras necessidades inerentes ao ser humano.
E o que podemos falar do futuro? Em nome de uma satisfação pessoal, e por uma preocupação de ter a exata sensação de vivermos dentro dos padrões impostos, podemos inviabilizar a sobrevivência de gerações futuras.Matamos nossa mãe, é isto. Ela, que torna viável nosso dia a dia, recebe um tratamento desumano.
Vivemos como se tudo jamais acabasse. E sabemos, só Deus é eterno. Se tirarmos algo de mãe Natureza, há que ser feito de forma racional e que não prejudique a continuidade de qualquer espécie.
Em seu livro 'Civilização Planetária', Leonardo Boff cita o fundamental: que todos os seres vivos têm o mesmo código genético. A diferença reside nas diferentes combinações deste código. Assim, continua ele, São Francisco de Assis não estava errado quando chamava os animais de irmãos.
Mas que destino têm estes nossos irmãos, se nem ao menos o ser humano conseguimos respeitar. A paz tem que ser um caminho para uma vida mais justa, que traga em seu bojo, reais possibilidades para todos.
Mas o que fazemos é justamente o contrário, vamos em frente, não importa que o outro sofra ou chore, que não tenha o que comer, que não possa receber uma educação digna. Temos mais a preocupação de acumular para não faltar. Como se pudéssemos prever o futuro. Como se controlássemos nossos destinos. Desta forma, chega-se a uma sociedade injusta, em que muitos sofrem necessidades para que poucos tenham assegurados seu 'legítimos' direitos.
Soluções? Não as tenho, mas carrego comigo a preocupação de estar fazendo parte de uma grande injustiça. Penso em Deus. O que Ele teria a me dizer neste exato momento? Também não sei, mas tenho a certeza que não era este seu plano. Ao nos colocar em um mundo tão perfeito, que supre todas nossas expectativas, acredito que desejaria que partilhássemos mais o que nos é ofertado.
É neste momento que meu coração se sente pequeno e isolado. Onde estão todos? Onde posso encontrar meu limite para tornar possível a vida de um irmão? Cada um tem sua resposta. E a reflexão conjunta pode nos levar a um início, a uma vida mais digna para todos.
O que falar então da espiritualidade? A consciência de que esta vida é efêmera, e que somos viajantes rumo a um mundo menos material e mais justo. A certeza da existência de um Deus pessoal, amoroso e receptivo, que não discrimina mas nos acolhe a todos. Pode ser o caminho. A fé em Deus passa então pelos companheiros de jornada. Quero começar, quero saber o que se passa com o próximo. Quero tirar de meus olhos a confortável venda que me permite viver independente da carência à minha volta. Quero ser feliz, sem que para isto, outro pague o preço alto desta injusta alegria.
6.6.11
Hoje, Senhor
Senhor, silencia meu coração para que possa ouvir-Te. Sei que minha alma é Tua morada. Quero hoje conversar Contigo São muitos os caminhos e meus pensamentos se confundem. Decisões são necessárias. Meus lábios não sabem mais o que dizer nem minha vontade se conhece. Que pessoa é esta, que muda ao simples movimento do vento, que me traz a certeza que nada sei. Desejo Tua companhia e Tua inspiração. Que ao me sentir incompreendida, saiba que também eu deixei de compreender, tantas vezes! As cicatrizes adquiridas no exercício da vida, sejam para mim, indícios da experiência que me faz enxergar mais e melhor.
Abraça-me, Senhor e que sempre possa sentir esta necessidade de Tua presença em minha vida
5.6.11
Tereza
Um dia conheci Tereza. Impressionou-me seu olhar cansado, ausente às vezes. Arrastava seu pesado corpo, por entre os carros que lhe obstruíam a passagem, em seu caminho de todos os dias. Mas nada a fazia desistir. Trazia, na cor cinza de seus olhos, uma vitalidade que lhe impulsionava a cumprir seus compromissos diários.
Tereza tinha quatro filhos. Dois deles já trabalhavam, mas não se comunicavam com ela. Tinham sumido na agrura da vida, exercendo talvez, a tarefa de se fazerem aceitos por este mundo, que nem sempre se apresenta afável. Os outros dois eram pequenos e confiavam plenamente em sua capacidade de protegê-los. Talvez fosse este seu grande trunfo diante da vida.
Mantínhamos uma relação profissional, que não me impedia de partilhar algumas dificuldades que eram evidentes. É estranho... Na verdade, Tereza é daquelas pessoas que encontramos, e de cuja vida só se conhece as tristezas. Mesmo quando sorria, seu sorriso era triste. Era como se me dissesse que a vida estava sendo dura para ela. Era como se me perguntasse se eu nada poderia fazer a respeito.
E eu, por vezes, ficava imóvel, minha atenção voltada para aquela mulher, que não lutava por seu lugar, não aspirava uma liberdade merecida, não sabia nem mesmo o que desejava. Queria, sim, trabalhar para sobreviver. Sentia-me triste quando a via passar, caminhando mecanicamente, passos titubeantes, olhar vazio.
Gostaria de fazer alguma coisa, mas não sabia como. Aquela realidade era muito distante de mim. Não compreendia alguém que jamais havia me falado de seus sonhos, apesar de termos passado muitas horas juntas, no dia a dia de nossas tarefas.
Despertava-me certa aridez no coração. Quando pensava nela, mesmo estando longe, sentia um peso na alma, algo inexplicável. Talvez a culpa de poder sonhar, talvez a constatação de vidas tão diferentes Perguntava-me como seria alguém que nunca fala de devaneios, projetos, que não tem planos, apenas passa os dias, travando uma luta incessante pela sobrevivência.
Acho que foi assim que descobri a riqueza de sonhar. Gostaria de poder ter presenteado Tereza com um pouco de colorido em alguns momentos. Talvez não fosse possível, talvez ela mesma não achasse necessário. Era tudo bem intangível, fugia do meu universo.
Compreendi, com ela, o que é ser uma grande mulher. Tereza muito me ensinou. Nada de ídolos, nada de pessoas que realizam grandes feitos, nada de gente que tem facilidade de fazer amizades, muito menos mulheres vitoriosas, com uma linda história a contar.
Tereza era um exemplo. Era simples e verdadeira. Sem revolta, acordava a cada manhã, sem o brilho de meus olhos, mas com a energia daqueles que sabem que existe algo mais além de tudo isto. E ela seguia sem desistir.
Tereza, para mim, esta sim, é uma heroína.
Cristina Arraes
Ando procurando
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| Foto de Cristina Arraes |
Ando procurando,
Por um sentido, uma direção
Ando procurando...
Pelas velhas cores de minha juventude.
Ando procurando,
Um trégua, harmonia.
Ando procurando
Por meu coração perdido.
Ando procurando
Um caminho, uma certeza.
Ando procurando,
por meus sonhos.
Ando procurando...
Projetos, reformulações,
Reinvenção,
Uma fé que remova
A mais leve sombra do medo
E um ponto no horizonte,
Para onde olhar,
Iluminando minha alma
E me fazendo decidir
Por minha vida,
Bela, plena, simples,
Dádiva de Deus.
Recordando... Cristianismo e preconceito
Já há algum tempo uma mudança maravilhosa aconteceu em minha vida, em meio a muitas atribulações, sentimentos de angústia e ansiedade que são tão comuns no ritmo acelerado da vida cotidiana.
Descobri que tenho um Amigo, inseparável e com o qual posso contar em todos os momentos. Esta descoberta passou a fazer parte de tudo e esta certeza me deu uma energia, que nunca havia conhecido.
Perguntava-me o que poderia fazer no sentido de partilhar com outras pessoas a paz que levei tanto tempo para encontrar. Perguntava-me também como consegui viver tanto tempo sem tomar conhecimento de Jesus Cristo, seu imenso amor, e a graça de poder ser filha de Deus.
Em meio a estes pensamentos, só uma certeza se me aparecia de forma clara. A única maneira de levar Deus às pessoas e fazê-las embarcar na mesma viagem seria por uma proposta norteada pela Palavra de Deus. Desejava imensamente falar desse Deus grande e misericordioso que, do qual um dia me dei conta, e que estava bem dentro de mim. Bem, estaria Ele mesmo dentro de mim? Eu, às vezes não o sabia, e então compreendi que não o poderia prendê-lo jamais em meu coração. Com certeza Ele ali estava. Mas também estava presente no imensidão do mar, no azul do céu, em cada pessoa que encontro no meu dia a dia, e também naqueles que nunca encontrei.
Imperiosa se fazia a proposta de dizer ao mundo que eu O amo muito e que todos precisam senti-lo em tudo e em todos. Percebendo-O tão próximo, tão inerente a todos, meu pensamento se dirigiu a um tema que muita maltrata a humanidade, o preconceito. É assim que devemos recorrer a Sua Palavra, para que Ele possa nos ensinar o que quer que realmente vivamos.Assim. pouco a pouco, dia a dia, será passo por passo na caminhada , num esforço de segui-Lo, de absorver seus ensinamentos e fazer do Seu, o nosso modo de viver.
A idéia do preconceito é por si só a negação dos ensinamentos de Cristo. A primeira coisa que me veio a mente foi a passagem em Levítico 19, 18-10a: "Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor."
Quem seria o "teu povo"? . Encerra-se uma questão em que se entende como povo, o povo de Deus, aquele que está nos templos orando e oferecendo sacrifícios. Algo me dizia que Jesus queria ir muito além do que isto. O povo de Deus... Esta expressão, como tantas outras encontradas na Bíblia, encerram ensinamentos de amor e fraternidade. Sim, acho que o Senhor nos queria dizer que somos todos pertencentes a Ele, destinados a Sua presença divina, a Sua misericórdia, e um dia, com certeza, haveríamos de contemplar a sua Face, sem distinção. Ao menos é esta a Sua vontade.
Sigamos bem mais adiante, já no Novo Testamento. Em Lucas 10,27 Jesus é questionado sobre a forma de conseguir a vida eterna, ao que Ele responde: O que está na Lei? Referia-se ao que está em Deut 6,5: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo." Novamente se impõe a questão do próximo. Desta vez é Jesus Cristo que esclarece, ao contar a parábola do bom samaritano (Lc10,25-37). Jesus mostra nesta passagem que não existe pessoa excluída, somos todos o “Seu Povo” e que o próximo é aquele com quem se tem um relacionamento, alguém com quem se fala, se encontra ou simplesmente se avista. Pedia para amá-Lo com todo o coração e falava no próximo... Eu era capaz de amá-Lo de forma completa e absoluta, entregando-me de corpo e alma e Lhe pedindo para dominar todos os meus sentidos.
Mas o próximo... Seria eu capaz de amá-lo com tanta intensidade?
Quando entro na mensagem de Deus, os meus pensamentos vão se sucedendo de forma magnificamente acelerada. Claro, agora percebo... o próximo... mas Jesus está ali, em cada sorriso de um homem, transmitindo-lhe alegria, em cada lágrima de um filho Seu, enxugando-lhe o rosto no toque doce de Suas mãos, em cada carência do meu irmão, confundindo-lhe o estado de ânimo com Suas próprias sensações no alto da cruz... Realmente, eu posso amar meu irmão, pois agora vejo Jesus Cristo, posso perceber Sua doce presença, os olhos bonitos e expressivos, ora me enviando uma alegria ímpar, ora me dizendo de sua dor por cada dor de seu povo, o povo de Deus, e sempre culminando com o abraço e a oferta de seu ombro, onde nada mais me podia atingir. Sim, eu posso sentir, Seus braços fortes e protetores, a presença divina, e uma brisa que me envolve e me leva a uma inimaginável paz.
Coloquemos em prática este ensinamento de Jesus Cristo. O preconceito não pode encontrar abrigo dentro de uma perspectiva de vida cristã. Na epístola de São Tiago, capítulo 2, versículo 9 temos: "Mas se vos deixais levar por distinção de pessoas, cometeis uma falta e sereis condenados pela lei como transgressores."
Se não acredito que Jesus, está ali, estou negando Seu sacrifício na cruz, Suas dores e torturas, Sua morte ressurreição. Pois Jesus está em cada um de nós e com certeza presente nos mais íntimos sentimentos humanos. Basta de ressentimentos, basta de diferenças, pois o mesmo Cristo que vive em mim, vive em toda a humanidade.
Não se pode conceber um seguidor de Nosso Pastor, que possa imaginar existir alguém que não seja participante da obra de Nosso Pai, obra que inclui o Povo de Deus.
Olhemos então com mais atenção para nosso próximo, este entendido todo homem, que foi criado a imagem e semelhança de Deus, e que por essa razão é nosso irmão e filho de Nosso Pai. Até porque, se acharmos que alguma pessoa não é merecedora de ser filho de Deus, deveríamos incluir nesta hipótese todos nós, pois não merecemos o Amor de Deus, nós o temos por Graça Pura.
4.6.11
Recordando... A fome do meu país
Nas manhãs claras e luminosas, minha cidade fica ainda mais bonita. Sou amante desse mar, de seu sol, de sua lua, de suas montanhas. Gosto de caminhar cedo, bem cedo, onde experimento a sensação da riqueza do presente de Deus. O dia que se descortina diante de meus olhos... Sei que é uma declaração de nosso Criador, a nós, homens. E o que Ele nos pede apenas? Ele nos pede amor. Que amemos uns aos outros. Um amor completo e absoluto que transcende a relação afetiva. Um amor que nos faz sentir o gosto da comunhão. Um amor que partilha. Um amor que entende os males da alma, que pode estender a mão ao irmão que lhe pede socorro.
Então comecei a pensar... Como posso eu viver assim, sem me manifestar, percebendo-me privilegiada em tantas coisas. Vivemos num mundo frio e impiedoso. Conseguimos inverter a ordem das coisas, as mais simples.
Meu carro para em um sinal, um menino se aproxima e eu, rapidamente fecho o vidro. Ele me pede um trocado, algo que pudesse lhe garantir o alívio da dor de sua fome. Ele me pede o que sobra. Um pão, um olhar, um momento de minha vida. Mas nada lhe é ofertado. E eu... Sigo em frente, vou a Igreja, faço minha oração e esqueço daquele rostinho sujo e carente, mas um rosto que não esconde a luz da esperança em seus olhos.
Admiro constantemente o céu, este lindo céu azul onde, muitas vezes, procuro Jesus. Mas para que olhar para o céu? Jesus está aqui entre nós, e, se não cresse nesta afirmativa, vã seria minha fé. Portanto Jesus me olhou de dentro do coração daquele pequenino ser, pedindo um pedaço de pão. E eu neguei, seguindo tranqüila.
Então penso em meu país, onde uma terra rica e fértil é predominância. E penso em todas as pessoas que choram por não poder comer, choram pela dor do vazio real em seus corpos. Pessoas sem chance de poder sonhar. Pessoas que não podem olhar para o céu, pois precisam procurar uma forma de sobreviver momento a momento. Pessoas que não ousam exigir o que lhes pertence de direito, seu quinhão nos produtos do país.
Ma não quero, não desejo permanecer nesta cegueira. Não é o que sobra que devo aquele pequenino que um dia me abordou. Devo-lhe muito mais, devo-lhe a partilha, devo-lhe um olhar, devo-lhe a sensação de poder contemplar as montanhas do nosso Rio de janeiro, tão bonito, mas que abriga uma multidão que não tem tempo de saciar a ânsia daquele menino. Como ele poderia fazer isto, sentindo a dor em seu estômago, dor da pobreza, dor que o impede de caminhar, que o faz chorar em total desespero?
Vou em frente com medo de olhar para trás. À noite, a chuva me traz a mesma sensação. Onde estará você, menino, que sequer sei o nome? Onde estará esta pequena obra de meu Criador? Onde estará o alimento que vai lhe garantir a vida, direito de todos.
Não... Não posso mais me calar. Deus é assim... Faz as coisas se tornarem presentes em nossas vidas, com delicadeza, com a mesma delicadeza que nos ama. Não posso resolver a questão da fome.Mas tenho a obrigação de não me manter afastada diante de tanta miséria. Preciso dizer não à covardia de continuar vivendo, como se todos tivessem o mesmo direito.
Que país é este? Um país com terra fértil, onde os produtos desta mesma terra são inúmeros. Um país que pode ser diferente. Quero amar meu país com liberdade e leveza no coração. Preciso saciar a fome de quem passa em meu caminho e estende a mão num pedido de socorro.
Mas é mais, é muito mais o que se impõe pela fome do irmão. Não sou cega, pois a luz de Cristo se manifesta na dor do menino de rua, que me assusta, mas me faz pensar. Tenho medo de quem tem medo? Naquele momento, fechei o vidro para que a dor da fome não invadisse meu colorido mundo. Fechei-me a Cristo que batia à minha porta. Mas Ele foi paciente, esperou e entrou em meu coração e em meus pensamentos.
Fecho os olhos e vejo tantas pessoas que dizem: Tenho fome, tenho fome, tenho fome!Será que não podemos fazer nada? Será realmente que esta situação é imutável? Diante de tantas preocupações dos dirigentes de nosso país, onde estará a fome de meu irmão? De repente percebi, que Deus nos capacita para que possamos usar seus presentes, seus tesouros a Seu serviço.
Pois então aqui estou, usando de um talento que Deus me concedeu. Escrever é meu mundo, escrever me faz viva, escrever me faz solicitar por uma decisão... Uma decisão de não deixar a luta ser estancada. Para cada um que tem fome, é preciso que haja uma mão que acolhe. E mais ainda, precisamos construir juntos um Brasil mais justo, mais uniforme. Um Brasil, em que não precisarei ter um pão na mão para estender a quem tem fome. Minha mão será de partilha, minha mão será calejada pela luta por um ideal comum. Um mundo mais igual, um mundo mais justo e sem fome. Para isto sei que conto com a palavra escrita. Sei que ainda não é muito. Mas sei também que já é um começo. Engajo-me então nesta campanha. Digamos não a acomodação. Olhemos para Jesus, não no céu, mas em cada irmão que chega a solicitar aquela colaboração. Que esta campanha siga em frente, torne-se um lema, uma meta de vida, para que um dia possamos ter o orgulho de dizer que o país sem fome que sonhamos, está mais perto, porque compreendemos que não devemos a estes irmãos o pão que sobra, mas devemos-lhe o trigo e o trabalho de prepará-lo.
Só aí poderemos lhe devolver o que realmente devemos: a chance de não pedir o alimento que lhe falta, mas a oportunidade de trabalhar para que o tenha garantido, restituindo-lhe a dignidade do ser humano, obra do Criador.
3.6.11
Recordando... Protesto
Acordou para mais um dia. Lentamente espreguiçou-se mas não podia deixar de notar o lindo dia que apenas começara e que podia observar de sua janela. Era um vista linda. Parecia-lhe poder, em apenas um olhar, vislumbrar este imenso Brasil tão cheio de mistérios e encantamentos.
Aprendera a amar seu país. Desde pequena sempre ouvira de seu pai, os ensinamentos que faziam de um povo, uma grande comunidade. Segundo ele, todos deviam zelar pelo bem comum. Não importava qual a grandeza do ato, tudo é importante e influi no ambiente, tornando-o mais ou menos adequado.
Não sabia porque, tudo isto vinha ao seu pensamento. E uma ponta de tristeza começou a lhe incomodar. Gostava de participar de movimentos populares e o envolvimento que denota a cidadania sempre a emocionara.
Ultimamente andava meio desanimada. E aquele dia, tão luminoso, veio como para despertá-la deste torpor. Não conseguia aceitar que brasileiros vindos da mesma terra, alimentados de frutos do mesmo solo e embalados pela mesma música podiam se distanciar tanto, por meio da ambição e da valorização do dinheiro.
Acompanhava sempre, muito melancólica, os acontecimentos de corrupção que invadiram o país, como uma onda, como um terremoto. Não era daquelas pessoas muito envolvidas com a política. Gostava de sonhar, escrever e se perder em seu devaneios, mas aqueles atos, vindos de sua gente a revoltava.
Pensava em como poderia participar de um caminho para uma melhoria, de uma chamada aos padrões de ética e moralidade que aprendera em tão tenra idade. O protesto então surgia como a principal saída. Um protesto puro, doído, saído de um coração que confiara.
Mas cada um é especial neste mundo, acreditava. Deus, em sua infinita sabedoria doava a todos. Cada um tem por isso um jeito de protestar. Este era o seu. Pensando em sua alma, doando-a e animando-a. Tinha para com ela uma preocupação singular, sempre tentando absorver de tudo que de bom apreciava. E seu caminho era este. Protestar através do devaneio. Mas preservando a integridade de sua alma. Sentira-a morta, por uns tempos. A desesperança tomara conta dela, quando viu o rumo dos fatos que aconteciam em seu país.
Mas despertara. Não podia crer num mundo sem expectativas. Por enquanto só podia escrever e... Sonhar e era isto que estava fazendo. Chorava pelos que não entendiam o quanto estavam perdendo.
Que linda oportunidade! Estar numa posição de destaque, neste imenso país, e poder fazer alguma coisa pelas pessoas mais necessitadas. E dormir! Dormir como os justos, dormir como um deles. Ter podido partilhar, de forma justa e honesta, ofertando a merecida oportunidade a todos.
Como seria bom, se pudessem, em vez de ficar ambicionando mais e mais, dessem daquilo que ia enriquecê-los de honra e mérito. Mas muito ainda se tem a caminhar. E desejava estar no caminho, sem voltar, sem parar.
Gostaria de poder dizer a estas pessoas, de sua total decepção. Tentaram matar sua alma, mas ela sobreviveu alimentada com esperança de que um dia, este país será partilhado por todos e todos se sentirão respeitados, não por seu dinheiro, mas pela integridade de seus atos.
2.6.11
Recordando... Um dia comum
Amanhã era um presente a cada dia e ela a recebia com o coração cheio da presença de Deus. Confiava plenamente neste Deus, mas naquele dia, especialmente, seu olhar vagava pelo céu azul, procurando um amparo, um sinal, uma luz.
Um dia cheio de projetos, mas também de muitas lutas. Nenhuma novidade: com a experiência de vida, já aprendera que as pequenas vitórias e derrotas se constituem em emoções que pontuam o estado da alma.
O sol agora já coloria tudo, trazendo pequenos raios brilhantes por entre as vidraças da janela de seu quarto. Um espetáculo que se repete e que nem por isso se torna semelhante. É a vida que penetra em seu mundo, o mundo de todos nós e nos traz a energia para que se possa seguir adiante.
Espreguiçou-se languidamente, concluindo não poder se permitir mais permanecer naquele estado de cômoda letargia. Era preciso agir. Olhos e ouvidos já se encontravam atentos aos primeiros ruídos e sinais daquela jornada que se iniciava.
Mas, apesar de tudo, de toda reflexão, de toda fé, sentia-se cansada. Era como se o mundo estivesse à parte e ela ali, sozinha. Difícil era caminhar. Mecanicamente se dirigiu à cozinha, que ainda conservava os aspectos da algazarra da véspera. Sorriu, apesar de suas preocupações, ao lembrar do dia anterior. Calmamente, começou a colocar em ordem uns poucos objetos que quebravam a harmonia daquele ambiente.
Sentiu saudades, uma saudade profunda, intensa que lhe fazia doer sua cabeça já meio confusa. Ultimamente, esta torrente de sentimentos sempre lhe invadia a alma. Algumas lágrimas desceram-lhe pela face, denunciando uma tristeza que insistia em se fazer companhia.
Já era dezembro. Sentia-se estranhamente só. Dezembro era mensageiro de muitas e estranhas sensações. O Natal se aproximava, o que sempre exige rostos felizes e troca de presentes. Nada disto fazia parte de seu universo naquele momento. Não tinha vontade de cantar, de comprar grandes e dispendiosos presentes.
Queria estar ali e uma música ao fundo, vinda da rua ou de algum apartamento próximo lhe aguçou os sentidos. Pessoas que se vão, que não voltam, que partem sem nem mesmo se saber o motivo. Etapas que se fecham, um mundo que se descortina, do qual ela fazia parte, atuante, protegendo, agindo, decidindo.
Era este o motivo de sua solidão. Refletia e se via ainda criança, encantada com o calor daquele mês tão cheio de novidades. Sensações há muito não sentidas. Os coloridos enfeites que adornavam as ruas do bairro onde habitara. Saudade da inocência perdida.
Mas, hoje estava ali, já não tinha certeza de tanta coisa! Velhos hábitos foram substituídos. A música também era outra. O sol se apresentava diferente. E o dia por vir, não era de brincadeira. Tudo muito real, tudo muito claro e objetivo.
Calmamente fez sua refeição matinal, tomou um banho quente e se vestiu corretamente para mais um dia de trabalho.
Cristina Arraes
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