26.8.06

Velho sonho

Velho sonho de minha infância distante
Perdido no dia a dia de meus afazeres
Alimento de minha alma carente
Que não mais consegui aspirar

Velho sonho que ficou para trás
No grande quintal de uma casa amada
Voando por entre as brancas nuvens daquele céu
Que nunca mais pude encontrar

Velho sonho, onde foste encostar?
Por acaso sacias outras almas infantis?
Onde está tua insistência e esperança
Que me faziam sorrir, que me faziam cantar?

Velho sonho de um mundo de paz
Trazido por incansáveis e fortes braços
Refletido no olhar de cada irmão
Na cumplicidade de nossos folguedos

Velho sonho de caminhar sempre juntos
Nunca se separar, nunca esquecer...
Confiar no amanhã, para sempre unidos
Partilhando a dor, partilhando o amor

Velho sonho daqueles que marcam
A alma, a vida, os laços fraternos
Migalhas de amor espalhadas
No caminho de sete vidas entrelaçadas

Velho sonho porque permitiu?
Que fosse embora quem povoou
Toda minha infância, toda minha vida
Cortando o elo que jamais se recomporá

Velho sonho volta para mim
Eu te quero aqui, eu te quero agora
Triste ou feliz, sacia a saudade
Refaz minha esperança de paz

23.8.06

Tenho saudades

Hoje tenho saudades
Do gosto da infância, do cheiro de terra
Do céu azul, palco de sonhos infantis
Das mãos unidas buscando proteção

Tenho saudades dos grandes olhos azuis
Onde tantas vezes me perdi em encantamento
Do portão verde por onde supunha
Pudesse encontrar um mundo de alegria

Tenho saudades de meu irmão
Sorriso largo, passos ligeiros
Dos longos e negros cabelos de minha mãe
Do abraço sempre presente de meus pais

Tenho saudades dos sorrisos e lágrimas
Das brincadeiras na velha casa
Do quintal, do jardim florido
Da rua que me levava a tantos destinos

Tenho saudades daquela gruta
Onde tantas vezes encontrei a paz perdida
Da imagem de Nossa Senhora a me sorrir
Da confiança que me transmitia

Tenho saudades dos sonhos perdidos
De poder olhar o mundo como um desafio
De mergulhar em viagens imaginárias
De visitar lugares longínquos

Tenho saudades do carinho distante
De caminhar levada por mãos seguras
De poder acordar sem compromisso
Poder dormir sem em nada pensar

Tenho saudades de meu coração
Livre, solto, desconhecendo o medo
Tenho saudade de sentir saudade
Da criança que ficou para trás

21.8.06

Presente

Hoje estou aqui
Não sei bem o que quero
Nem tão pouco para onde vou
Mas é o presente que me absorve

Saber viver, saber amar
Saber sorrir, saber chorar
E pela sombra de meus olhos
Gostar da vida e de tudo a volta

O presente se faz mais forte
Retira-me do abismo a minha volta
Faz-me sentir o amor de Deus
E experimentar a vida eterna

Por ela aspiramos
Alimenta-nos com a esperança
De tudo acabar, e tudo permanecer...
Sem ao menos poder entender

Sinto esta vida brotando
Em minha alma, em meu coração
Pela confiança no Criador
Pelo simples fato de viver

E aí o presente se faz mais forte
Sem mais nada existir
Pois sei que estou aqui
E posso renascer apenas do nada

Um momento, apenas um momento
E nunca mais o viverei
Minha alma bebe a natureza profunda
Do imenso milagre de existir

18.8.06

Mãe de Todas as Mães

Mais uma vez venho a Ti
Mãe de todas as mães
Que abrigou no santo ventre
Quem deu a vida por nós

Amor de todos os amores
Carinho sem trégua ou limites
Nos momentos de imensa dor
Sempre estás presente

Hoje é dia de festa
Dia que homenageamos as mães
Desejo então neste dia
Abrigar-me no teu abraço

Um dia eu possa quem sabe
Ver em teus olhos refletida
A imagem de meu rosto
Junto com aqueles que amo

Mãe de eterna beleza
Primeiro sopro de amparo
Tu serás sempre para mim
Exemplo de ternura

E o amor que percebo
Dentro de meu coração
Pudera um dia mãezinha
Traduzir para os que encontro

E se esta graça alcançar
Sei que um mundo melhor
Com certeza nascerá
Presente incomparável
Da mãe de todas as mães

16.8.06

Bom dia

Bom dia
Pelo sol que nasce,
pela luz que ilumina a tua existência
É bom anunciar que a vida se reinicia
Pois é notícia do Criador
Hoje terás uma nova oportunidade
De amar, de sentir, de sorrir e de sofrer

Bom dia
Um grande presente
Que vem te acordar para mais uma jornada
Chega compartilhando de tuas tarefas
Com o sol radioso ou com a chuva em canção
Prometendo não recuar, transformando tudo
Momentos, sentimentos, pensamentos e intenções

Bom dia
Do amigo, do irmão, daquele que passa
Sem falar, um instante apenas...
Mas olhares se cruzam e mais uma certeza
Afirma-se em Tua existência
O momento mágico entre duas pessoas
Vindas do mesmo Pai, criadas do mesmo Amor

Bom dia
Que se repete, com a luz que chega
Tímida ao início de tua jornada
Para se tornar rainha na plenitude de mais uma etapa
Aquecendo a vida, clareando atalhos
Num mesmo tom, com vários matizes
Colorido envolto em total mistério

Bom dia
Finalmente forte e decidido
Da vida que se faz presente no teu olhar que desperta
Rumo ao futuro, passos firmes, coração inquieto
Construindo por meio de sonhos, semeando com fé
A certeza do novo horizonte que nasce na alma
Para que também tenhas o grande ensejo de dizer...
Bom dia

Homenagem a meu irmão Sergio


A CRUZ DE CRISTO

Poema: Francisco Sergio Arraes Moreira


Essa cruz que eu carrego nos ombros largos,
É apenas um pedaço da cruz de Cristo.
Todos os homens carregam nos ombros
Um pedaço mínimo da cruz de Cristo


Um pedaço mínimo da Cruz de Cristo, e eu me ponho em desespero, num total abandono de mim mesma. Todos irão carregar algo, com o fim de participar do maior sacrifício que se tem notícia. Gesto de amor, renúncia total. Nosso salvador derramou a última gota de sangue por nós e o fez de maneira especial por cada um. Não é algo impessoal, mas preocupação individual, amor completo e marcante, que grava nossa alma de forma indelével.

Eu não poderei chegar à grande Morada,
Com meus ombros leves e sem castigo,
Como se fossem duas penas de pássaros
Mortos num despertar de primavera.

Meu coração pede uma eterna alegria, prazeres que não são inerentes às necessidades da alma. Às vezes eles passam, sem nem mesmo nos trazer felicidade momentânea. Ombros leves que não poderão sustentar um irmão em carência. Corpo sem sustentação que almejamos por total limitação. Não sabemos pedir, pedimos mal. E foram tantos os momentos, em que agradeci a Deus, não ter me concedido aquilo que um dia Lhe implorei. Ombros leves, mal conseguem se manter erguidos.

Para poder chegar às portas da Morada,
Tenho que ferir minha carne nos espinhos,
E sentir pesar em cima dos ombros
O pedaço que me cabe na cruz de Cristo.

Diante de meu Criador... Um dia estarei, diante da grande face de Luz. Que terei eu a apresentar? Esconder-me? É difícil pensar neste momento, mas urge que o façamos. Momento primordial de toda nossa vida, quando sabemos, que tudo o que tivermos feito de bom, será pouco diante da grande misericórdia divina. Saber-me participante do projeto de Deus, conhecer seus caminhos, tomar posse de seu Amor.

Para poder olhar de frente a face de Deus
É preciso que eu sofra muitas vezes ainda,
Que eu colha males pelo bem que fiz,
E sem revolta possa chorar muito mais...

Vem o pranto sentido, conseqüência da dor que castiga a carne, tortura a alma. Mas nada disto é muito, quando se constitui caminho para o Pai de Amor. Colho os espinhos das rosas que Deus me oferta. Para tocá-las machuco as mãos. Estes espinhos doem em contato com a pele. Mas o perfume inebriante que me envolve no toque com estas flores... Perfume divino

Eu semeio lágrimas no chão da vida,
E estas lágrimas que semeio todos os dias,
Me ofertarão ventura algum dia,
Porque são pedaços da cruz de Cristo.

Que lágrimas não secarão? O chão se torna fecundo, rico dos nutrientes que suga de minha dor. Cresce então a minha fé, cresce a vontade de me ver, face a face, com Cristo. Participo de Seu sacrifício, entro em comunhão com Ele. Chego a não saber quem sou eu, pois a vida de Cristo me coloca diante do amor infinito, da alegria do encontro, da certeza de sua presença.

Bendito o pranto que põe meus olhos fundos,
Molhando meus olhos de lágrimas!
Bendita a saudade que às vezes consome
Tantas horas, dentro de minha vida!

Meu irmão foi bom caminhar com você, por este poema, sentir a importância de nossas experiências. Posso perceber o salgado das lágrimas, o amargo da saudade. É estranho, você se foi numa manhã de fevereiro... Acho que não pude lhe dizer do que via em sua alma. Talvez não pudesse nem mesmo ver o que estava tão claro. Mas hoje você está aí, diante de Deus, num merecido encontro, desfrutando da misericórdia do Criador. E depois que você partiu, pude caminhar por entre sentimentos, sua fé sempre tão viva, tudo possibilitado pela sua arte de escrever emoção. E isto me permitiu chegar até você, e por seu intermédio, até Deus.
Gostaria de fazer mais, por mim, pelo mundo, por todos. Mas esbarro em minhas limitações e nas dos outros também. E fico inerte, vendo o tempo passar, derramando lágrimas, desejando modificar, retroceder, transformar minha história, ser mais próxima do projeto de Deus. Mas acho que tudo isto, você conseguiu.
Meu coração é todo, saudades. Saudades daquilo que não vivi, saudades do que poderia viver e ainda assim, com total consciência, não consigo viver. Saudades, meu irmão, de você, muitas saudades.
Com Amor
Sua irmã Cristina

13.8.06

Busco a poesia


Busco a poesia nas coisas simples da vida. Pode ser alegre, pode ser triste. O que importa, na verdade, é o que se tem no coração. Coisas que fazem parte de minha história. Já não existem muitas delas, mas ficou o espaço reservado para a saudade ou quem sabe, o alívio.
Gosto da beleza da realidade, que nos envolve e nos faz especiais. Ninguém tem a mesma história, ninguém tem o mesmo caminho. Esta individualidade faz do homem um ser único. E é isto que me fascina e me leva a escrever.
Busco a poesia de meu coração. Às vezes em prosa, às vezes em poema. Mas sempre poesia, a forma de ver beleza no presente da vida.